quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Desejos de ano novo

Para 2014 desejo a todos os atores e apaixonados por teatro como eu...

Patrocínios e apoios culturais para todos;
Leis de incentivo melhores;
Projetos de sucesso;
Trabalho árduo, mas recompensador;
Textos que nos convide a pensar ou embarcar numa aventura incrível para fugir um pouco da realidade;
Espetáculos que, de alguma maneira, modifiquem as pessoas;
Ensaios tranquilos e bom ambiente de trabalho;
Cenários leves e práticos de carregar;
Figurinos duráveis, bonitos e baratos;
Maquiagens que não escorram com o suor;
Palcos firmes que não ameacem desabar a qualquer momento;
Iluminação que não falhe;
Sonoplastia perfeita;
Plateias cheias e público satisfeito;

Eu poderia listar 2014 desejos aqui, mas ao invés disso encerro desejando apenas muitos aplausos, sucesso e muita MERDA sempre!

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Só pra esclarecer

É comum as pessoas pensarem que trabalhar com arte é fácil. Então eu pergunto: Não ser valorizado lhe parece fácil? Não ter hora pra acordar, pra dormir ou comer lhe parece fácil? Bater perna atrás de patrocínio e só ouvir "não" lhe parece fácil? Trocar o almoço com a família ou uma festinha porque precisa trabalhar lhe parece fácil? Pois não é! Não é mesmo!

Como se não bastassem as dificuldades inerentes da profissão de ator, ainda é preciso ter sangue frio e paciência pra aguentar perguntas como "Ah você é atriz, mas que novela você fez?", "Me manda um beijo quando for no Faustão?" e assim se segue até que alguém sem noção nenhuma do mundo diz "Ai que chique! Você deve ganhar muito bem!". A reação mais comum é aquele sorrisinho amarelo com cara de paisagem pra não mandar a pessoa praquele lugar!

Há ainda aqueles que acham que ator, palhaço e comediante é tudo a mesma coisa! Chegam pro ator falando mais ou menos assim: "Conta uma piada", "Faz alguma coisa engraçada!", "Anima a festa de aniversário da minha sobrinha? Você é ator mesmo!"
Pra piorar um pouco mais, há aqueles que não acreditam quando você chora de emoção porque "você é ator então interpreta 24 horas por dia e sete dias por semana". Esses pra mim são os piores! Interpretar não é mentir! Não sei quanto à outros atores, mas eu me incomodo muito quando pensam que estou fazendo tipo só porque sou atriz. Meu trabalho, toda minha interpretação, se restringe aos ensaios e apresentações!


Vamos deixar bem claro pra não haver dúvidas: 

1- Ator e palhaço são coisas diferentes, apesar de ambos não receberem o devido valor. Você não pede pra um açougueiro cortar seu cabelo, então não peça pra um ator animar festa de criança.
2- Atores têm vida, são pessoas normais que riem e choram quando sentem vontade e, acredite, a maioria não fica fazendo gracinha por aí. Os que fazem não podem ser chamados de atores de verdade!
3- Ator ganha pouco! Então se puder ajudar (de verdade) de alguma forma, faça isso! Apoie, patrocine e, principalmente, prestigie! Não há recompensa maior que o reconhecimento!
4- Nem todo ator almeja trabalhar na TV, ficar famoso e dar entrevista no Jô... Mas todo artista merece respeito e consideração, trabalhando em uma grande emissora ou numa cia. de teatro amador.
5- Atores se sacrificam e ralam à beça, então faça o favor de não dizer-lhes que seu trabalho é fácil.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Aventurando na escrita

Que ator nunca quis, teve uma pontinha de vontade ou realmente tentou escrever uma peça de teatro?

Acho que é algo que passa pela cabeça de qualquer ator. Depois de tanto interpretar personagens idealizados por outras pessoas, bate aquela curiosidadezinha misturada com uma vontade estranha de criar seu próprio texto.

Pois bem, fiz isso há alguns anos em conjunto com uma amiga. Nossa vontade "era do tamanho de um clássico", então decidimos transformar algo que já existia e mexemos logo com um grande nome do teatro em um de seus textos mais famosos: "Romeu e Julieta" de William Shakespeare.

Estávamos cansadas de ver montagens padronizadas que buscavam ser fiéis aos originais, queríamos inovar e fazer as pessoas pensarem que dá pra fazer coisas diferentes sem fugir à história que o autor queria contar. Mas claro, demos nosso toque, contamos a história do nosso jeito e modificamos o final (sim, aquele final clássico e triste) a fim de transmitir uma mensagem: "Tudo sempre acaba bem e se ainda não está bem, é porque ainda não chegou ao fim!".

Pra quem tiver curiosidade em saber como ficou essas adaptação, é só baixar o texto clicando aqui!

Desde então não escrevi outro texto para teatro, mas vez ou outra escrevo algumas coisas... Assim nasceram alguns contos que podem ser encontrados no meu perfil no site Recanto das Letras.

Se tenho ideia pra escrever mais  um texto teatral? Tenho sim e talvez um dia eu finalmente escreva... Quem sabe? 

Enquanto isso, "Julieta e Romeu?" continuará sendo montado (principalmente por grupos de escola) e fazendo pessoas rirem um pouco ao ver um clássico com outros olhos! =D

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Top 20 - Textos Teatrais

Por ser atriz, mas principalmente por manter um site sobre teatro, estou sempre procurando, lendo e estudando textos de teatro. 

Dia desses estava lendo um grande bate papo de atores falando sobre textos teatrais que recomendavam ou que consideram importantes para a formação de um ator. Comecei a pensar sobre isso e cheguei à conclusão de que não sou uma pessoa muito normal! Claro, existem aqueles textos que são verdadeiros clássicos e que toda humanidade (não somente os atores) deveria ler. 

Mas na minha "lista" de textos de leitura indispensável estão alguns títulos que vão além dos clássicos. Criei um "Top 20" de textos que eu indico para leitura. 

Segue abaixo com links pra quem, por ventura, quiser baixar:

1- "Medéia" de Eurípedes
2- "A Casa de Bernarda Alba" e 3- "Yerma" de Federico Garcia Lorca
4- "Auto da Barca do Inferno" de Gil Vicente
5- "Pluft - O Fantasminha" de Maria Clara Machado
6- "O Caixeiro da Taverna" de Martins Pena
7- "Escola de Mulheres" de Moliére
8- "Dorotéia" e 9- "A Falecida" de Nelson Rodrigues
10- "Quando as Máquinas Param" de Plínio Marcos
11- "Piquenique no Front" de Fernando Arrabal
12- "Esperando Godot" de Samuel Beckett
13- "Édipo Rei" e 14- "Eléctra" de Sófocles
15- "Sonho de uma Noite de Verão" de William Shakespeare
16- "Um Bonde Chamado Desejo" de Tennessee Williams
17- "Os Saltimbancos" de Chico Buarque
18-
"Lisístrata" de Aristófanes
19- "Os Pequenos Legumes" de Cyrano Rosalém
20- "A Cantora Careca" de Engène Ionesco

Ressalto que o vigésimo é o meu preferido! Não diria que é um clássico, pois muita gente não o conhece. Mas é o melhor texto de Teatro do Absurdo que eu já li. É bom porque é simples e isso torna sua montagem um desafio que deve ser levado muito a sério, pois qualquer deslize pode acabar com sua simplicidade e magia. O décimo primeiro e o décimo segundo seguem essa mesma linha: são maravilhosos, mas requerem cuidado redobrado numa eventual montagem.

Espero que quem vier a ler os textos indicados nesta lista, goste tanto e veja tanto potencial neles quanto eu. 

Boa leitura!

sábado, 16 de novembro de 2013

Entrando no compasso cômico

Alguns dizem que “é mais fácil fazer chorar do que fazer rir”. Não sei até que ponto eu concordo ou discordo disso! Na verdade, acredito que o que difere o drama da comédia seja a técnica aplicada! E se a técnica de um é mais simples que a da outra é só uma questão de ponto de vista. Se no drama podemos usar a memória emotiva em nosso favor, na comédia não podemos nos valer dela.

Fazer comédia é complexo... Mas o drama também é! Não devemos nos esquecer que tragédia rima com comédia e que isso significa que se nos excedermos em qualquer um dos dois, pode acabar se tornando o outro. Como? Assim... Uma comédia forçada pode ser desastrosa tornando-se, portanto, trágica. Já um drama exagerado pode acabar se transformando num dramalhão mexicano e “assim nasce a tragicomédia”. Dá pra entender o quanto os dois podem se misturar e se unir mesmo sendo, aparentemente, tão diferentes?

Penso o seguinte: pra fazer teatro, o ator precisa se entregar ao personagem e dar o melhor de si! Porém, pra que se faça um drama, o ator pode recorrer a inúmeras técnicas e mesmo que ele não faça a plateia se debulhar em lágrimas, ele pode conquistar sua meta e atingir o público. Já numa comédia, a grande sacada é o “tempo”. Se as falas não forem dadas no “tempo certo”, elas não surtem tanto efeito... Se um movimento não é feito no “tempo precisamente exato”, ele perde a graça! O drama também tem o seu “tempo” que se não for bem pensado e feito, cria lacunas no espetáculo. São “tempos” diferentes! Cada um no seu compasso!

Mesmo tendo contato anterior com a comédia, eu fui aprender e sentir um pouco mais como isso funciona na montagem da cena “A Família Gildézia”.


Por mais que amemos todos os personagens que já fizemos, nós atores, sempre temos os nossos xodós. A Gildézia é um dos meus por dois motivos: porque foi meu primeiro personagem cômico e porque é um personagem simplesmente sensacional! Foi quando comecei, verdadeiramente, a entender e fazer comédia.

Abaixo vai o vídeo com a cena completa pra quem quiser conhecer essa nordestina desbocada, ingenuamente esperta, mão coruja e louca que é a Gildézia. Espero que gostem, pois eu amei dar vida a essa parideira arretada! =D

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

O retorno...

Fiquei afastada aqui do meu blog quase que pelo mesmo tempo que fiquei afastada do teatro. Mas agora estou de volta pra quem possa interessar! =P

Bom, continuando... Retornei ao cotidiano teatral em 2010 de uma maneira que eu não esperava por dois motivos. Primeiro: em São Paulo! (Eu não pensava na possibilidade de vir pra Sampa com frequência e muito menos de me mudar pra cá, como aconteceu posteriormente). E segundo: no Teatro Empresarial.
 
Eu nunca havia sequer ouvido falar em Teatro Empresarial até aquele momento. E quando “comprei” a ideia, me surpreendi positivamente e hoje acho que é uma experiência pela qual todo ator deveria passar, como já disse numa postagem anterior sobre o assunto.
 
Logo em seguida, tive a oportunidade de contracenar com três antigos amigos e companheiros de cena numa comédia... Minha primeira comédia!
 
A montagem de “O Poderoso de Novilha Morta” foi uma homenagem a um grande mestre e amigo nosso e também um reencontro entre pessoas que se gostam e que queriam muito trabalhar juntas novamente. Pra completar, foi uma grande aula pra mim!
 
Antes dessa montagem, os bastidores eram o mais próximo que eu já havia estado de uma comédia. Então foi ali que minha cômica começou a funcionar. Ainda de maneira discreta, mas começou!
 
A tal veia cômica “engrossou” com o passar do tempo e das verdadeiras aulas particulares que pude ter como meu diretor, autor e ator de comédia favorito, meu marido! hehe As experiências com o Empresarial também ajudaram um bocado, mas foi na montagem de uma cena que minha porção cômica realmente se mostrou... Vai na próxima postagem! (Em breve! Eu prometo!)

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Fazer Teatro ou Ser de Teatro

Sabe quando você gosta muito de alguém e de repente, por um motivo qualquer, se distanciam? Você sente saudade, tem momentos de nostalgia lembrando dos bons momentos vividos e o coração fica tão apertado que chega a doer, não é? Mas e quando uma determinada atividade já faz parte da sua rotina que você fica até perdido quando não a tem mais? Esse sentimento causado pela falta de uma atividade que além de estar acostumado você adora fazer é muito parecido com a saudade que nos maltrata quando estamos longe de alguém querido! Foi o que aconteceu comigo... E o teatro!

Após 7 anos de atividades praticamente diárias no teatro (não só como atriz, mas também como contrarregra, produtora, operadora de som e luz e qualquer outra coisa que precisasse) tive que me afastar deste ambiente que outrora me fazia tão bem, mas que em 2008 me colocava pra baixo. Foi uma questão de convivência, de relacionamento interpessoal, de influências. A velha história de que não é possível agradar a todos! E aí a melhor coisa que se pode fazer é se afastar. Foi o que eu fiz!

Ah, como eu senti falta! O teatro era (e atualmente voltou a ser) tão parte do meu dia a dia, sempre fez parte de mim, do meu ser, e quando tive que me afastar doeu demais! Não vou mentir, fiquei alguns dias trancada em casa, chorando vendo fotos e vídeos. Fiquei mal mesmo! E, na ocasião, não tinha como procurar entrar em outro grupo até por respeito ao meu então diretor que nada tinha a ver com a história.
 
Enfim... Fiquei 2 anos assim... Longe dos tablados, sem ter o prazer de ensaiar, sem sentir o calor dos refletores, sem ver as cortinas se abrirem ou fecharem. E essa falta toda doeu de verdade! Era disso que a Fernanda Montenegro falava naquele vídeo que coloquei junto com uma de minhas postagens anterior... "se morrer porque não está fazendo isso (teatro), se adoecer, se ficar em tal desassossego que não tem nem como dormir, aí volte, mas se não passar por esse distanciamento e pela necessidade dessas tábuas aqui, não é do ramo". Eu já não tinha dúvidas, mas a partir daquele momento tive a certeza de que “sou de teatro”! É aí que mora a diferença entre fazer teatro e ser de teatro.
 
Voltei ao teatro em 2010, mas isso é assunto pra próxima postagem! =D

domingo, 21 de julho de 2013

Intensamente delicado

Chegamos ao ano de 2006 com a montagem da cena “Meninas do Brasil” inspirada no livro “Meninas da Noite” do jornalista brasileiro Gilberto Dimenstein que é o resultado de uma série de reportagens sobre a prostituição infantil. A cena de 15 minutos segue a linha abordando o assunto de forma intensa e delicada!

Essa cena foi um verdadeiro acontecimento, pois o elenco não esperava algo tão intenso e teve apenas um mês para deixar tudo pronto para participar da décima edição do FESCETE (Festival de Cenas TESCOM). Surpreendentemente e para a alegria de todo o grupo, a cena foi vencedora do festival! Também recebeu indicações de melhor atriz, sonoplastia e direção, e ainda conquistou o prêmio de melhor texto original.


Era eu, mais uma vez, “enfiando o pé no drama”! É mais um trabalho que tenho orgulho de ter participado, orgulho de ter no currículo artístico!

Apesar de ter pouco tempo para ensaiar e a aprontar a cena (embora noção de tempo se torne algo muito relativo depois que se começa a fazer teatro empresarial), eu e as outras meninas do elenco fizemos um belo trabalho de mesa. Desde criação de uma gênese completa dos personagens até uma pesquisa discreta no centro da cidade de Santos onde se encontra uma grande concentração de mulheres na função.


Melhor não falar muito sobre a cena... As imagens falam por si só! Abaixo vai o vídeo com a cena completa para quem quiser assistir e entender um pouco. Espero que gostem!

sábado, 6 de julho de 2013

O Ministério da Saúde adverte!

Há quem diga que o teatro é uma droga daqueles que te tornam dependente e que provocam inúmeras reações. E é tão poderoso que basta experimentar uma única vez para viciar e não querer largar nunca mais.

Algumas outras pessoas dizem que o teatro é uma doença. Daquelas que se pega no ar, basta entrar num teatro e pisar num palco e pronto: INFECTADO! E algumas vezes, a “doença” do teatro pode ser genética. Uma vez infectado, o teatro fica gravado no DNA e pode ser transmitido por gerações e gerações seguidas.

Eu acho que o teatro tá mais pra um fungo, uma larvinha ou um parasita, tipo um bicho geográfico, sabe? Ele penetra na pele e vai tomando conta do corpo todo... Até que chega ao coração. E aí já era! Você será um eterno apaixonado por teatro! Bichinho danado esse, não?

Seja como for, uma vez contaminado, infectado, conquistado, arrebatado verdadeiramente pela magia do teatro, não há como abandoná-lo! As exceções que conseguem se desprender desse vício, é porque são naturalmente imunes aos encantos desta arte.

Como disse Fernanda Montenegro quando questionada sobre qual conselho daria à um ator em início de carreira: “Desista!... Confundem teatro com liberdades, licenciosidades, glórias, paetês, retrato no jornal, riquezas."... Porém,... "se morrer porque não está fazendo isso, se adoecer, se ficar em tal desassossego que não tem nem como dormir, aí volte, mas se não passar por esse distanciamento e pela necessidade dessas tábuas aqui, não é do ramo".


E o Ministério da Saúde adverte: não há vacina, tratamento e nem muito menos cura para a doença (amor, dependência, vício) pelo teatro! Ainda bem!

quarta-feira, 3 de julho de 2013

A Divindade do Teatro

Não existem provas sobre a origem do teatro, mas a teoria com que mais se concorda diz que a origem do teatro ocidental é Grega e teve seu início nas festas em honra ao Deus Dionísio (ou Baco na mitologia Romana), que é o Deus dos ciclos vitais, da alegria e do vinho.

Eu, modestamente, não apenas concordo e aceito essa teoria como também acredito que essa seja a melhor forma de explicar a natureza divina do fazer teatral, que é análogo ao de um sacerdócio, em que o palco é um lugar elevado para oferecer sacrifícios aos deuses ou heróis, ou seja, um altar, e os atores são os sacerdotes dos deuses. A prática do palco exige dedicação absoluta, sacrifício e paixão. Prazer no sacrifício, isto é, vocação!

O teatro é um ritual religioso em que os deuses (atores) descem à terra para comemorar, festejar, confraternizar, provocar, mudar, emocionar e depois se vão. Sim! O ator é como um Deus nos palcos, onde ele pode fazer tudo e ser tudo, tendo o poder de realizar coisas inimagináveis, de dar vida a diferentes seres e de viver várias vidas em uma só.

O fato é que o teatro tem a idade dos deuses e todos os dias, no momento em que um ator pisa num palco, ele estará celebrando com paixão e respeito seus deuses protetores.

O teatro é essencialmente aquele momento entre o ator e o espectador. No momento em que o espetáculo é encenado ele está ali, é real, você pode senti-lo. Quando a peça acaba, o teatro some. Aquela arte, aquela história, as imagens, as personagens, desaparecem. No dia seguinte, o teatro surge novamente e extingue-se da mesma forma. É momentâneo, fugaz! O resto é só preparação para isso. O teatro mesmo é uma arte efêmera, pois aparece só ali, nesse encontro entre artistas e espectadores, com a benção do deus Dionísio.

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Infantis

Seguindo a ordem cronológica dos meus trabalhos como atriz... Depois de três dramas (“As Traíras”, “... Eternamente...” e “Às Sombras de um Carnaval”) fiz um infantil. Era uma cena de 15 minutos chamada “Quem Casa, Quer Casa – Ou Não” com base no texto de Tatiana Belinky e eu era uma coelhinha caipira bem bonitinha! Hehe

Mas o que eu realmente quero falar sobre infantis é a dificuldade de se fazer um espetáculo infantil. Fazer teatro infantil não é só muito mais difícil como também é preciso ter tanta qualidade quanto o teatro adulto. Deve-se ter muito cuidado, pois você passa valores para a criança. O teatro infantil não pode ser só diversão, tem que ser aproveitado para passar também coisas boas. É um público em formação em vários sentidos!

E enquanto o público adulto fica sentado mesmo odiando a peça e ainda aplaudem por educação no final, as crianças são mais sinceras... Se gostarem, vão prestar atenção, vão querer te abraçar, querer tirar foto e lembrarão de você por um bom tempo. Mas se não gostarem, pode esquecer! Vão correr pelo teatro, virar pra conversar com o amiguinho da fileira de trás e no final ainda te dão um chute na canela. É... Bem por aí!

Mas como vale a pena fazer algo para as crianças! É o público mais “difícil”, mas é também o mais gostoso. Se você, ator, acha gratificante ouvir aplausos e gritos de aprovação de um público adulto no final de uma apresentação, experimenta isso com o público infantil, experimenta apresentar pra crianças e desfrutar dessa mesma sensação de dever cumprido e público satisfeito. É indescritível!

Taí! Essa é mais uma experiência que eu acho que todo ator deveria ter. Alguns atores fazem questão de dizer que começaram sua carreira no teatro infantil. Como se o teatro infantil foi um estágio de evolução de um ator, como se fosse menor ou menos importante. Com isso se cria um abismo entre o teatro adulto e o infantil, que não deveria existir, pois tudo é teatro. Não existe diferença! É claro que as existem diferenças entre a forma de fazer um e outro, mas não no sentido de ser melhor ou pior. A dramaturgia é uma só! E teatro infantil de qualidade é igual ao teatro adulto de qualidade. É preciso investir numa boa produção, bons textos, bons atores, um ótimo figurinista, cenógrafo, diretor... Enfim, a qualidade está nos profissionais, na competência, no talento e na consciência desses profissionais.

Mais recentemente fiz a Branca de Neve, mas não é a Branca de Neve mesmo, mas sim uma boneca dela. E foi com essa montagem que eu tive a real noção do que é apresentar um espetáculo infantil, com toda aquela interação e magia que a criançada gosta. E a melhor sensação do mundo é ver aquelas carinhas felizes chamando o nome do seu personagem e te fazendo carinho.


Nem tem muito mais o que se dizer, a não ser que é uma experiência e tanto e eu recomendo demais!

sábado, 8 de junho de 2013

O tal do DRT

Primeiramente é preciso explicar o que é esse tal de DRT que todo mundo fala: DRT é a sigla de Delegacia Regional do Trabalho. Ou seja, “ter” um DRT significa ser registrado profissionalmente, ter sua profissão regulamentada na carteira de trabalho. Estabelecendo um comparativo para melhor compreensão: o DRT é como o CNA (Cadastro Nacional dos Advogados), por exemplo. Resumindo: um ator que “tem” DRT, teoricamente, é um ator profissional, que está preparado para atuar. TEORICAMENTE!

Dito isso, vamos agora entender o sentido das palavras “amador” e “profissional”... A principal definição de amador é: “aquele que ama”. E a principal definição de profissional é: “Aquele que exerce uma ocupação como meio de vida ou para ganhar dinheiro”. Se seguirmos essa lógica, eu posso me considerar uma “atriz amadora profissional”! Afinal de contas, sou atriz, amo o que faço e ganho dinheiro com isso. Não “tenho” DRT de atriz, mas isso nunca me impediu de exercer a função e de forma alguma isso me desqualifica como profissional da área.

Porque eu disse lá em cima que o DRT significa teoricamente que um ator tem preparo e qualificação para exercer a função? Simples! DRT é apenas um número de registro profissional que, não necessariamente, qualifica alguém. Algumas pessoas podem fazer inúmeros cursos e ter o bendito do DRT e não ser “tão bom assim”. O que impede um ator sem o tal registro de ser tão bom, ou quem sabe melhor, que um ator que tem esses números na carteira profissional?

DRT é só um número, assim como o RG, o CPF, o Titulo de Eleitor e etc... E nós somos mais que isso, somos muito mais que apenas números!

Acho errado dizer que uma produção com falhas é uma produção amadora... Uma produção falha ou sem técnica é só uma produção com erros primários ou sem qualidade. Tem ator por aí com 35, 40 anos de carreira que até hoje não aprendeu a fazer teatro, pois continuam cometendo os mesmos erros de sempre, fazendo as mesmas coisas sem qualidade e da mesma forma sempre. (Lembrando uma postagem minha anterior: erre bastante, mas erre pra aprender a fazer certo, pra não cometer mais os mesmos erros e abrir espaço para novos erros, crescendo cada vez mais!)

Escrevi tudo isso só pra dar uma opinião: Ser um ator com DRT não o torna melhor que um ator que não tem. Ser um ator com 100 anos de carreira não o torna melhor que um ator com 6 meses. Ter DRT não te garante trabalho. Ser arrogante não te leva a lugar algum, já ser humilde te torna uma pessoa melhor.

Só pra ficar claro, sei que posso ser crucificada por algumas coisas que escrevi aqui, mas é só a minha opinião. E opinião é como gosto, religião, futebol e política: não se discute! Concorde ou não, mas aceite!

terça-feira, 4 de junho de 2013

Teatro Empresarial

Eis uma experiência que eu realmente preciso compartilhar! O teatro empresarial é uma maneira criativa e extremamente eficaz de capacitação profissional, de conscientização sobre procedimentos de segurança no trabalho e dinâmicas de grupos, além de promover um momento de lazer aos funcionários também ilustra a importância do trabalho em equipe e aprimora conhecimentos. Levar informação com diversão, essa é a principal função do teatro empresarial! Atraímos a atenção do público, o fazemos rir e ao mesmo tempo o ensinamos a ter um comportamento seguro, proativo, entre outros benefícios.

Você ator/atriz de teatro, imagine o seguinte: fazer de quatro a oito apresentações num único dia sendo a primeira às 05h30 da manhã e a última às 23h, numa sala sem acústica ou num espaço aberto, debaixo de uma lona num dia quente de verão, sem iluminação própria, na cara da plateia (bem pertinho mesmo), algumas vezes sem palco ou usando a carroceria de um caminhão como tablado e uma cadeira como escada, um camarim improvisado com tapumes, com um dia pra decorar o texto e de repente até sem tempo pra ensaiar direito. Imaginou? Pois bem, é mais ou menos isso o que acontece!

Se você pensa que isso é uma reclamação, aviso que é exatamente o contrário! Todas essas adversidades dão um gás novo e uma funcionalidade incrível ao ator. São detalhes que os atores acostumados às mordomias dos camarins e espelhos cheios de luzes ao redor que facilitam na hora de se maquiar, dos palcos italianos com luzes por todos os lados e acústica perfeita não conhecem.

Quando comecei a fazer teatro empresarial achei uma tremenda loucura e me apavorei, confesso! Mas hoje sei o quanto isso me ajudou e me transformou numa atriz (e pessoa) melhor. Atualmente continuo trabalhando na área com minha cia., a Katinsk Produções Artísticas, que possui vasta experiência em teatro empresarial. E essa coisa de algumas empresas entrarem em contato querendo um espetáculo pra SIPAT faltando dois dias pro evento é algo que realmente nos enlouquece a princípio, mas com o tempo nos aprimora. E aí quando você tem três meses pra decorar o texto, preparar o personagem e ensaiar um espetáculo fica tudo muuuuuuuito mais fácil! O mesmo acontece quando você já está habituado a se apresentar em salinhas pequenas e de repente se vê no palco de um grande teatro.
 
Enfim, acho que todo ator/atriz de teatro deveria trabalhar com teatro empresarial por pelo menos um mês. E ao final dessa experiência, retornando aos grandes palcos numa produção que permita um trabalho mais apurado e há longo prazo, certamente notará as mudanças em sua forma de ver o “fazer teatral”, os benefícios trazidos pelos percalços e os atalhos, truques e dicas aprendidos com o teatro empresa.

Indico e sugiro aos atores que tiverem oportunidade de viver essa experiência que o façam com a mente e o coração abertos, certos de que apesar de eventuais momentos de stress inevitáveis, terão boas histórias para lembrar depois e uma bagagem e tanto!

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Todo ator precisa saber...

O que todo ator (de teatro, mais especificamente) em formação deve saber a respeito da profissão? Aqui vai uma lista de informações que eu acho imprescindíveis para qualquer ator. De dicas de conduta até regrinhas básicas:

- O ator deve sempre ter em mente que está ali por causa do público:
O teatro é composto por um tripé: ator, espetáculo e público. Sem atores não há espetáculo, sem espetáculo não há público e sem público não há teatro. E a maior motivação para um ator de teatro deve, sempre, ser o público!

- O ator deve ter senso de hierarquia e respeito aos colegas de trabalho:
Por mais absurdo que pareça, quando escreveu o texto, o autor sabia exatamente o que queria. O diretor, por mais louco que possa parecer, também sabe o que está fazendo. E se um ator não concorda com o trabalho que está sendo desenvolvido, é preferível que abandone o projeto. Não há personagem pequeno, mas sim atores de egos inflados. Portanto, trate seus colegas de cena como semelhantes localizados no mesmo degrau da hierarquia teatral. Sem alguém para cuidar dos figurinos, montar o cenário, operar o som e luz o espetáculo fica prejudica. Logo, respeite os profissionais dessas áreas, pois o ator depende e muito deles. Ou seja, respeito é bom e todo mundo gosta e há se respeitar os que estão à frente do trabalho.

- O ator deve ser profissional:
Não é porque a sociedade discrimina o artista dizendo que o que fazemos não é trabalho, que devemos dar razão a eles. Arte é trabalho sim e ator rala pra caramba! Um ator deve ser responsável, dedicado, pontual e proficiente. É louvável ainda que ele possua garra, determinação e empenho.

- O ator deve decorar o texto e não esbarrar no cenário:
Isso é básico! Um ator sem o texto decorado é um pintor sem pincel ou pedreiro sem pá. E quando se está em cena, é o personagem e este conhece muito bem todo o espaço, logo não esbarra na cenografia.

- O ator deve ter autocrítica:
Saber admitir quando fez alguma besteira é um bom começo.

- Humilde acima de tudo:
A humildade deve estar sempre presente na vida de um ator. Por mais elogios que ele possa ouvir, é preciso estar ciente de quando estão exagerando e, principalmente, do quanto se pode melhorar SEMPRE! E cá entre nós, estrelismo não leva ninguém a lugar nenhum.

- Ator normalmente não tem vida pessoal, familiar ou sentimental:
A vida é cheia de escolhas! E quando se escolhe essa carreira, é preciso ter consciência de que terá de abrir mão de baladas com os amigos, viagens e almoços/jantares com a família porque precisa decorar texto, ensaiar e dormir bem.

- Todo ator deve ler:
A leitura enriquece o vocabulário, instiga a imaginação e melhora a capacidade de compreensão.

- O ator não deve ter medo de ser ridículo:
Se um ator tem medo do ridículo, então ele não é um bom ator.

- É sempre uma boa ensaiar descalço:
Para adquirir movimentos mais leves e apropriados com os pés, nunca se deve ensaiar de sapatos. Ensaiando descalço, o ator certamente constatará os bons resultados que isso proporciona. Inclusive pela troca de energia que ocorre entre o ator e o tablado.

- O ator deve saber o que fazer com as mãos em cena:
Cada movimento em cena deve ter uma razão de ser, uma motivação. Nada, absolutamente nada deve ser por acaso ou sem propósito. Há de se lembrar ainda que não se deve esconder as mãos, seja cerrando os punhos ou colocando as mãos em bolsos do figurino.

Por último... Você é ator, diretor, autor ou produtor de teatro? Então pare de reclamar dos problemas do teatro e apenas faça-o funcionar. Estamos tão mal acostumados a falar dos problemas do teatro: a falta de dinheiro, a falta de incentivo, a baixa venda de ingressos... E por aí vai! Mas essa “crise” provavelmente, existe desde Téspis!

Ouso propor que ao invés de reclamar sempre das mesmas coisas, busquemos entender os problemas, lidar com eles e principalmente resolvê-los.

Porque será que o público de teatro é cada vez mais escasso? Será que estamos abordando os temas que eles gostariam que abordássemos? Que tal tentar agradar a plateia dando-lhes o que eles querem ao invés de reclamar da falta de interesse deles?

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Bagagem

Cada trabalho da carreira de um ator é como se fosse um carimbo no passaporte marcando viagens (boas ou ruins) para lugares, épocas e vidas diferentes. Além das lembranças, de cada uma dessas viagens, nós atores, trazemos um souvenir que é conservado com muito carinho.

Esses souvenires são aquelas experiências que vão nos transformando e melhorando com o passar do tempo. É a nossa bagagem! Experiências ruins que nos ensinam e experiências boas que nos impulsionam!

Ouvi de um diretor muito querido algumas muitas vezes a seguinte frase: “Cometemos erros para que possamos aprender com eles e não repeti-los mais, pois se insistirmos nos mesmos erros de sempre não teremos chance de cometer novos erros e aprender ainda mais!” E é isso mesmo! Eu mesma disse em alguma postagem anterior que um ator nunca está pronto, nunca sabe tudo... É preciso estar sempre buscando aprender e melhorar a cada dia. E a melhor forma pra aprender e se aperfeiçoar é cometendo erros!

Por exemplo: se num determinado trabalho o ator acabou perdendo a voz por forçar demais, da próxima vez ele certamente vai se dedicar mais ao aquecimento vocal, ou vai buscar aperfeiçoar sua respiração e uso do diafragma. Se em outro trabalho o ator esqueceu o texto em cena, da próxima vez ele vai pensar porque isso aconteceu, terá sido porque não se dedicou o suficiente para decorar ou terá sido o nervoso? Seja como for, ele vai procurar estudar mais o texto e talvez até fazer um relaxamento antes de entrar em cena. Enfim... Aconteça a falha que acontecer, é preciso corrigir! Caso contrário ficaremos estagnados, sem ter pra onde correr!

As boas experiências também nos ensinam, claro! Quando um ator cuida bem do seu figurino e maquiagem, obviamente percebe que isso lhe traz benefícios e continuará cuidando da mesma forma. Se um ator faz uma boa preparação vocal e sabe impostar sua voz sem força-la, certamente terá um bom desempenho vocal em cena e até aquela senhorinha meio surda sentada na última fileira da plateia vai ouvir e entender o que esse ator diz!



Resumindo: o ator é um mochileiro que coleciona carimbos no passaporte, que está em constante movimento, sempre na estrada carregando e preenchendo sua bagagem um pouco mais em cada uma de suas viagens e sempre trazendo um souvenir pra recordar!

Boa viagem!

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Medo

Que ator nunca teve medo de esquecer o texto? Que ator nunca sentiu frio na barriga na hora de entrar em cena? Que ator nunca quis desistir de tudo bem na hora do espetáculo começar?

Na hora de entrar em cena acontece sempre a mesma coisa comigo: o coração acelera, a respiração fica descompassada, as mãos tremem e o corpo parece tão anestesiado que eu sinto como se fosse desmaiar, mas todos esses sintomas desaparecem como mágica logo que piso no palco. É tudo muito rápido, mas essas sensações já fazem parte dessa deliciosa loucura de ser atriz.

Quantas vezes, nós atores, sentimos como se estivéssemos uma bela de uma porcaria em cena. Saímos nos achando o pior ator do mundo, um canastrão, falso, imbecil, mas recebemos do público uma resposta tão positiva que nos deixa confusos, ouvimos deles elogios e relatos emocionados sobre os momentos dramáticos da peça ou confissões de quase urinar na poltrona do teatro de tanto rir das cenas cômicas. Assim ficamos sem entender nada!

Com isso acabamos aprendendo que é muito importante ter autocrítica e saber quando poderíamos ter sido melhores, que a opinião e reações do público são os melhores termômetros e que é bom ter um pouco de medo! Com medo de errar o texto ficamos mais atentos pra não errar, só não pode bitolar e se desesperar senão aí é que dá branco mesmo!

Um ator confiante demais, normalmente, não faz um bom trabalho. Um ator que se acha pronto, que não tem mais nada pra aprender ou melhorar será sempre o mesmo e com o tempo poderá tornar-se medíocre. Algumas pessoas acham que é fácil ser ator, que não é preciso estudar... Não fazem ideia do quanto estão erradas. Qualquer profissional de qualquer área precisa estudar sempre, correr atrás, se atualizar, se aperfeiçoar e com o ator não é diferente! Ninguém nunca está pronto, ninguém nunca sabe tudo. Precisamos aprender sempre, caso contrário pra que estamos aqui?

Enfim, esses medos fazem parte! E quando um ator deixa de sentir esse frio na barriga, essa tensão é porque o casamento com o teatro não anda bem. Esse medinho de estar em cima de um palco e diante de uma plateia faz parte, tem que fazer parte! É essa adrenalina toda liberada por esses medos que vicia a gente! Eles nos instigam e nos fazem seguir em frente, que o Dionísio permita, sempre com esses medinhos bons de sentir!

Evoé!

quarta-feira, 27 de março de 2013

Dia Mundial do Teatro

O teatro é a expressão da realidade. Instrumento de divergência, advertência, ensinamento, documentação e instrução. E desde que Téspis resolveu sair do meio do coro e se destacar foi definida uma nova linhagem artística de pessoas que criam, interpretam e representam uma ação dramática baseando-se em um texto: o ator! Aí que tudo se lascou de vez mesmo!

A quantidade de pessoas que acham que o teatro (ou qualquer outro tipo de arte) não é trabalho é inacreditável! Pensam e criticam dizendo: “Teatro é coisa de vagabundo!”, “Mas você é formado?”, “Artista é tudo vagabundo, prostituta e homossexual!” e a pior de todas: “Ah, você faz teatro? Mas trabalha em que?”. Como assim trabalho em que? Eu faço teatro! Acha pouco? Então vejamos...

Ator também acorda cedo, tem um trabalho danado pra estudar e decorar um texto, criar o personagem, ensaia horas a fio, se desgasta nas apresentações e não desanima mesmo quando tem meia dúzia de gatos pingados na plateia. Pra completar ainda tem que aguentar os “amigos” pedindo ingresso grátis como se pagar R$20 pra prestigiar um espetáculo de pessoas que ralaram pra fazer um bom trabalho fosse muito se comparado com gastar R$100 numa balada de sábado a noite, encher a cara e ficar com dor de cabeça no dia seguinte. Uma empregada doméstica não cobra pra fazer faxina na sua casa? O farmacêutico não cobra pra te vender um remédio pra enjoo? O padeiro não te cobra pelo pão? Pois bem, caro amigo, tudo na vida se paga. O teatro é o meu trabalho, então eu vou te cobrar ingresso SIM!

Claro que não é fácil até porque todo tipo de arte é desvalorizada, mas nós artistas estamos sobrevivendo e pagando nossas contas. Fazer o que se gosta e o que se nasceu pra fazer é privilégio para poucos. Muitas vezes ganha-se o suficiente apenas para bancar as necessidades básicas do dia a dia, é mesmo assim se feliz pra porra! Artista sofre, mas se resiste na arte é porque ama o que faz!

Precisamos de mais pessoas que apreciem a arte! Nesse caso específico, precisa-se de mais pessoas que se disponham a levantar a bunda do sofá e ir até o teatro assistir um espetáculo que o fará refletir e não só ficar lá sentado contemplando o nada! Aposto que se aquelas pessoas que vão ao teatro de cara amarrada (porque foram obrigados pela namorada, mãe, professora,...) se abrissem aos encantos das artes cênicas, se apaixonariam! O teatro é mágico! Em que outro lugar você pode ter a sensação de poder alcançar e tocar no seu personagem preferido? Em que outro lugar você sente a raiva pulsante daquele vilão terrível ou a doçura e alegria contagiante daquele herói? SÓ NO TEATRO!

Por isso hoje, DIA MUNDIAL DO TEATRO, deixo meus parabéns a todos os meus colegas de trabalho que suam a camisa pra levar cultura e entretenimento aos poucos espectadores assíduos dos teatros de todo o mundo! Parabenizo-os pela coragem, perseverança e amor por essa arte tão bela e que engloba todas as outras artes enriquecendo-se ainda mais! Parabéns nobres guerreiros! Parabéns atores!

Vocês merecem todos os aplausos do mundo! 
Muita merda!

quinta-feira, 21 de março de 2013

Ator de cara limpa

É comum as pessoas confundirem o ator com o personagem, o público em geral acaba relacionando e tratando os dois como se fossem um só. Esquecem que o ator é uma pessoa comum com uma vida pessoal (não muito normal e nem tão agitada devido às horas decorando, ensaiando, viajando ou apresentando um espetáculo), com problemas, contas pra pagar e tudo mais que faz parte do dia a dia de qualquer ser humano. Tenho ainda a leve impressão de que os atores com aquela veia cômica mais aflorada sofrem mais com esse tipo de coisa, pois sua comicidade e peripécias em cena leva o público a acreditar que ele é assim o tempo todo, é como se o ator tivesse a obrigação de ser engraçado sempre. Muitos desses atores acabam perdendo a chance de participar de trabalhos diferenciados por estarem marcados por um gênero ou personagem que fez anteriormente.

Por que estou dizendo tudo isso? Por que tem gente que simplesmente não acredita que um ator possa ser tímido! E pensando um pouco a respeito, cheguei à conclusão de que isso é muito estranho, embora seja compreensível até certo ponto. haha

Dia desses fui divulgar apresentações de um espetáculo em algumas escolas. Visitei sala por sala pra falar um pouco sobre a peça e convidar os alunos para assistir. E era eu mesma ali, de frente praquelas pessoas, de cara limpa, sem um texto decorado, sem figurino, maquiagem, nada... Era apenas eu! E poxa, como isso é difícil!

Quando estou em cena não tenho vergonha de nada (nem mesmo quando me estabaco no tablado e a plateia inteira ri), mas ali não sou eu mesma. Embora esteja de corpo e alma ali no palco, estou vivendo um personagem que tem seus próprios conflitos, pensamentos e atitudes pré-definidas por um texto que eu estudei e decorei. Procuro me doar nesse momento e esquecer de mim. Mas quando a Hellen tem que falar em público... Ai, ai, ai! Mesmo sabendo o que tenho/preciso dizer, sou eu mesma ali e isso dificulta um pouco as coisas. Aí você pode dizer “então por que não vestir um personagem pra falar em público?” Sinceramente, não sei bem como responder, mas sei que não é bem assim que a coisa funciona. O buraco é mais embaixo! Tem situações que não tem como fazer isso. Talvez outra pessoa, outro ator/atriz consiga realizar tal façanha, mas eu não me vejo fazendo isso. Mas o importante é que sai! O que eu preciso falar em público, sai! Provavelmente não com a naturalidade propriamente minha daqueles momentos que converso com um amigo, por exemplo, ou com a mesma naturalidade (um tanto técnica) de quando estou interpretando em cima de um palco.

Resumindo: Não sou tímida, estou longe disso. Mas me sinto insegura pra falar em público, sim! Mas quando estou em cena me transformo! E acho isso o maior barato! hahaha Faz parte da graça (e esplêndida magia) de ser ator!

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Ensaio

Tem ator que não gosta de ensaiar... Tenho minhas dúvidas se essas pessoas podem ser chamadas de “atores”. Um ator de verdade, daqueles que amam o que fazem, sabe a importância de um ensaio e o valor de deixar de lado um almoço de família ou uma balada com os amigos pra ensaiar um espetáculo.

Eu sou suspeita! Como uma apaixonada pelas Artes Cênicas, eu adoro ensaiar! Acho que isso é amar o teatro: curtir todo o processo! Desde o estudo do texto até à apresentação. E eu curto! Ah, como eu curto! Não me incomodo em ficar 4, 5 horas (às vezes mais!) ensaiando, repetindo cada cena até a exaustão. São ossos do ofício, não!? Faço com prazer!

Creio que possa dizer que sou uma atriz muito fácil de dirigir. Claro que já tive meus momentos de dizer “não consigo fazer isso”, “não vou fazer assim”, “não sei como fazer”, mas no fim das contas eu meto as caras, faço o que a direção pede e dá tudo certo!

Enfim... O que eu não entendo é a falta de compromisso de alguns “atores” que dizem “na hora sai” porque não gostam de ensaiar, que não decoram texto simplesmente porque não se dedicam a essa tarefa, que faltam aos ensaios sem dar satisfação, que chegam atrasados por falta de planejamento pra chegar na hora (Claro que imprevistos acontecem, mas sempre? Tem alguma coisa errada!) e por último, os que chegam pra ensaiar sem o texto em mãos dizendo que já estão com tudo decorado e esquecem logo a primeira fala.

Todo esse processo é gostoso se você se dedicar, gostar do que faz, gostar da peça e das pessoas que trabalham ao seu lado. Por isso, faço um apelo aos verdadeiros atores: Vamos curtir isso! Vamos fazer o possível pra tornar esse momento algo pra ser lembrado com saudade. Façamos com que essa experiência profissional se torne uma boa experiência de vida também. Vamos fazer amigos e não apenas contatos. Vamos fazer teatro com amor!

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Teatro e dinheiro combinam?

Dia desses recebi um e-mail pelo meu site de uma estudante de Artes Cênicas de uma universidade pública do Sul do país. Ela dizia que antes de chegar à faculdade, havia feito um ano e meio de oficinas de teatro, em duas escolas diferentes, nada muito profissional. E agora que está chegando ao segundo ano de faculdade começou a ter dúvidas com relação ao que eu realmente quer. Ela começou a pensar e se preocupar muito com a parte financeira da coisa. Disse que no início não se importava com isso, mesmo que fosse preciso passar fome para fazer teatro, mas sua visão mudou. Hoje ela almeja ter uma vida financeira estável, que possibilite viagens e bens materiais e escreveu o e-mail para saber basicamente se: "É possível um brasileiro fazer parte de alguma companhia de teatro conhecida na França, Portugal ou algum país da Europa? Se for possível, eu imagino que a pessoa precise ralar muito, mas é possível?"

Puxa! Deve-se imaginar a minha cara depois de ler esse e-mail, não? Como responder dando minha opinião sem interferir diretamente na decisão de uma pessoa e ao mesmo tempo esclarecendo a dúvida com base na minha pouca experiência? Não sei se fiz certo, mas o que respondi foi: "De fato, viver de arte em geral (não só de teatro) no Brasil não é nada fácil. Inclusive, viver de teatro, especificamente, não é fácil em lugar algum. Tem-se a ilusão de que em alguns outros países a arte seja mais valorizada, mas o fato é que são poucos os sortudos e verdadeiros amantes do teatro que conseguem sobreviver única e exclusivamente do teatro. Sou atriz desde 2001 e assim como você, nunca tive e continuo sem ter, a menor intenção e/ou vontade de ir pra televisão. Há lugares com mais campo, vamos dizer assim, onde há mais possibilidades de trabalhar com o teatro. São Paulo (Capital), por exemplo, que é onde resido hoje. E mesmo que aqui, supostamente, tenha um campo mais amplo, ainda é muito complicado conseguir trabalhar e viver só de artes cênicas. Há muita competição, muita coisa acontecendo ao mesmo tempo e muita sujeira também, não há porque negar esse fato. É preciso se dedicar e ralar muito, mas muito mesmo pra vencer com o teatro (na realidade, com qualquer tipo de arte). Eu sou uma artista e se não fosse o teatro, hoje eu estaria em qualquer outra área artística. Sou da arte e já me conformei com o fato de que se quiser continuar fazendo arte terei de abdicar de certas coisas, talvez trabalhar com qualquer outra coisa com um horário de certa flexibilidade pra que possa dedicar meu tempo livre à minha paixão e, certamente, passarei algumas dificuldades inerentes à profissão. São coisas da vida e a vida é cheia de escolhas. Não se pode ter tudo. Mas se o teatro é o que você realmente quer pra sua vida, só você mesma pode dizer. E se quer aceitar essa profissão em sua totalidade, com seus prós e contras, também só você pode decidir. Mas pense que hoje em dia nenhuma profissão é "segura". Tudo muda muito rápido, as coisas acontecem muito rapidamente hoje em dia. Hoje você está bem, tem um emprego estável e uma profissão que te possibilita uma carreira promissora e amanhã pode não ter nada disso."

Dito isso, quero acrescentar aqui o que acredito serem alguns dos vários fatores pelos quais é difícil ganhar a vida com o teatro: a falta de hábito das pessoas, a comodidade trazida pela televisão (sim, porque é muito mais fácil sentar a bunda no sofá e assistir uma novela com tema batido do que sair de casa e ir até o teatro pra assistir à um espetáculo que te faça refletir. Pra que pensar se é possível ter tudo mastigado?); os valores, de certa forma também (tem gente que gasta R$100 numa balada de sábado a noite, mas não quer pagar R$20 num ingresso de teatro, mas se tiver um global pagam sem dó) e por último a falta de incentivo. Mas há leis de incentivos, Hellen! Há, há sim! Mas até conseguir um deles, você já desistiu de fazer teatro (Obs.: Se tiver um QI se consegue rapidinho!). E há ainda uma pequena parcela de "profissionais" do ramo que conseguem ganhar dinheiro e fazer a vida com o teatro, mas como? Simples... Lucrando em cima do trabalho dos outros, normalmente dos atores que ganham uma merreca de cachê.

Enfim... Só quero dizer que viver de arte é muito difícil, mas não é impossível. Ou pelo menos não deveria ser! Infelizmente a preocupação com as contas nos persegue, tudo gira em torno do dinheiro, da necessidade de se ganhar dinheiro... E muitas vezes isso nos impede de fazer (e ser) o que verdadeiramente queremos.

Pra encerrar, deixo um pensamento sobre isso: "O que você gosta realmente de fazer? O que você faria se o dinheiro não existisse?". Pense a respeito!

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Enfiando o pé no drama

Pois é, voltei ao blog! Acontece que entre os meus muitos defeitos, tenho um muito grave: gosto de audiência. Podem me chamar de metida, aparecida ou qualquer coisa assim... O fato é que sou atriz e gosto de ter público, gosto de “aplauso”! haha Enfim, tô de volta!

Acho que já comentei aqui que quando comecei a fazer teatro já fui logo enfiando o pé no drama. Pois bem, já falei de duas experiências nesse campo do meu início de carreira e agora vou falar de outro: “Às Sombras de um Carnaval”.
Maria Rita e Rosário
É um espetáculo inspirado no conto “Antes do Baile Verde” de Lygia Fagundes Telles. Tudo acontece momentos antes do primeiro baile de carnaval da inocente Maria Rita e sua irmã mais velha, Rosário, lhe faz surpreendentes e perturbantes revelações sobre o passado da família. Só que pra chegar a essa sinopse o texto foi escrito, reescrito e modificado uma porção de vezes. É nisso que dá ter um diretor que também é autor das próprias montagens! Pode mexer a vontade! hahahaha

Adorei todas as minhas participações em montagens teatrais (no palco e nos bastidores também!), mas tenho um carinho muito especial por esse espetáculo. Me marcou de verdade! O texto é especial, forte e cheio de surpresas. Você começa a assistir pensando que é uma coisa, aí lá pro meio da peça você já começa a pensar de outro jeito e de repente tudo se inverte. Isso sem falar no final! Ah, eu adoro isso! O personagem que eu interpretei, a Rosário, é meu xodó! Mais uma vez... Gosto de todos os meus personagens, mas ela é sensacional!  

Rosário
Aqui vai um vídeo com trechos da peça. A gravação não está muito boa até por causa do ambiente em que foi filmado, mas dá pra ter uma noção. Espero que gostem!