segunda-feira, 29 de abril de 2013

Bagagem

Cada trabalho da carreira de um ator é como se fosse um carimbo no passaporte marcando viagens (boas ou ruins) para lugares, épocas e vidas diferentes. Além das lembranças, de cada uma dessas viagens, nós atores, trazemos um souvenir que é conservado com muito carinho.

Esses souvenires são aquelas experiências que vão nos transformando e melhorando com o passar do tempo. É a nossa bagagem! Experiências ruins que nos ensinam e experiências boas que nos impulsionam!

Ouvi de um diretor muito querido algumas muitas vezes a seguinte frase: “Cometemos erros para que possamos aprender com eles e não repeti-los mais, pois se insistirmos nos mesmos erros de sempre não teremos chance de cometer novos erros e aprender ainda mais!” E é isso mesmo! Eu mesma disse em alguma postagem anterior que um ator nunca está pronto, nunca sabe tudo... É preciso estar sempre buscando aprender e melhorar a cada dia. E a melhor forma pra aprender e se aperfeiçoar é cometendo erros!

Por exemplo: se num determinado trabalho o ator acabou perdendo a voz por forçar demais, da próxima vez ele certamente vai se dedicar mais ao aquecimento vocal, ou vai buscar aperfeiçoar sua respiração e uso do diafragma. Se em outro trabalho o ator esqueceu o texto em cena, da próxima vez ele vai pensar porque isso aconteceu, terá sido porque não se dedicou o suficiente para decorar ou terá sido o nervoso? Seja como for, ele vai procurar estudar mais o texto e talvez até fazer um relaxamento antes de entrar em cena. Enfim... Aconteça a falha que acontecer, é preciso corrigir! Caso contrário ficaremos estagnados, sem ter pra onde correr!

As boas experiências também nos ensinam, claro! Quando um ator cuida bem do seu figurino e maquiagem, obviamente percebe que isso lhe traz benefícios e continuará cuidando da mesma forma. Se um ator faz uma boa preparação vocal e sabe impostar sua voz sem força-la, certamente terá um bom desempenho vocal em cena e até aquela senhorinha meio surda sentada na última fileira da plateia vai ouvir e entender o que esse ator diz!



Resumindo: o ator é um mochileiro que coleciona carimbos no passaporte, que está em constante movimento, sempre na estrada carregando e preenchendo sua bagagem um pouco mais em cada uma de suas viagens e sempre trazendo um souvenir pra recordar!

Boa viagem!

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Medo

Que ator nunca teve medo de esquecer o texto? Que ator nunca sentiu frio na barriga na hora de entrar em cena? Que ator nunca quis desistir de tudo bem na hora do espetáculo começar?

Na hora de entrar em cena acontece sempre a mesma coisa comigo: o coração acelera, a respiração fica descompassada, as mãos tremem e o corpo parece tão anestesiado que eu sinto como se fosse desmaiar, mas todos esses sintomas desaparecem como mágica logo que piso no palco. É tudo muito rápido, mas essas sensações já fazem parte dessa deliciosa loucura de ser atriz.

Quantas vezes, nós atores, sentimos como se estivéssemos uma bela de uma porcaria em cena. Saímos nos achando o pior ator do mundo, um canastrão, falso, imbecil, mas recebemos do público uma resposta tão positiva que nos deixa confusos, ouvimos deles elogios e relatos emocionados sobre os momentos dramáticos da peça ou confissões de quase urinar na poltrona do teatro de tanto rir das cenas cômicas. Assim ficamos sem entender nada!

Com isso acabamos aprendendo que é muito importante ter autocrítica e saber quando poderíamos ter sido melhores, que a opinião e reações do público são os melhores termômetros e que é bom ter um pouco de medo! Com medo de errar o texto ficamos mais atentos pra não errar, só não pode bitolar e se desesperar senão aí é que dá branco mesmo!

Um ator confiante demais, normalmente, não faz um bom trabalho. Um ator que se acha pronto, que não tem mais nada pra aprender ou melhorar será sempre o mesmo e com o tempo poderá tornar-se medíocre. Algumas pessoas acham que é fácil ser ator, que não é preciso estudar... Não fazem ideia do quanto estão erradas. Qualquer profissional de qualquer área precisa estudar sempre, correr atrás, se atualizar, se aperfeiçoar e com o ator não é diferente! Ninguém nunca está pronto, ninguém nunca sabe tudo. Precisamos aprender sempre, caso contrário pra que estamos aqui?

Enfim, esses medos fazem parte! E quando um ator deixa de sentir esse frio na barriga, essa tensão é porque o casamento com o teatro não anda bem. Esse medinho de estar em cima de um palco e diante de uma plateia faz parte, tem que fazer parte! É essa adrenalina toda liberada por esses medos que vicia a gente! Eles nos instigam e nos fazem seguir em frente, que o Dionísio permita, sempre com esses medinhos bons de sentir!

Evoé!